A Ana, ou como desenhar sem borracha
- Ana NM
- 5 de abr. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 4 de set. de 2021

Ontem cruzei-me com a Ana.
Os anos passaram mas o seu sorriso e os seus olhos ternurentos, tal como a sua franja, não deixaram dúvidas de que era mesmo ela. Não a via há cerca de 25 anos, mas quando me sorriu e me abraçou, as memórias voltaram todas ao de cima.
A Ana talvez tenha sido, sem querer (ou mesmo de propósito), quem tenha despertado o meu lado mais criativo e curioso em criança.
Com a Ana aprendíamos sem darmos conta, através de mil estímulos sensoriais nas várias atividades que desenvolvíamos nos tempos-livres.
(Sim, naquele edifício antigo, lindo, a que chamavam a 'Obra das Mães'. Onde o chão de madeira rangia a cada passo, onde cheirava a cera daquela cor de laranja, onde os pés-direitos nos pareciam intermináveis, com as salinhas e salões com os seus tetos em gesso trabalhado, cheios de personalidade e o pátio, que, se fechar os olhos, ainda me consigo lembrar do barulho que fazíamos ao brincar naquele pátio: gargalhadas, canções, sussurros e gritos de alegria).
Cada dia era imprevisível, exceto fazermos os trabalhos de casa: isso vinha sempre primeiro. Fazíamos batota, acho que nunca os fazíamos todos, porque mal podíamos esperar pelo que nos esperava nesse dia.
Podíamos pegar nos pincéis e desenhar um mundo inventado ou uma simples maçã, irmos ao quarto dos adereços e mascararmo-nos do que quiséssemos para nos transformarmos em personagens com historiais mirabolantes, encenarmos mil peças improvisadas na hora, dançarmos, termos aulas de lavores com a Dona Iria Alice (onde aprendíamos ponto de cruz e fazíamos mil pompons - nunca fiz a lagarta, roubavam-me sempre os pompons! [* existe um post sobre a Dona Iria, para quem quiser ler]), jogarmos ao lencinho, ao macaquinho do chinês, à mensagem secreta, gastarmos as palmas das mãos com coreografias e cantigas sem nexo algum, ou entoarmos as lengalengas que ecoavam pelo pátio enquanto saltávamos à corda, tão comprida que, ficar a rodá-la nos dava forças mágicas.
Ali o mundo era todo nosso, era feito de mil peças por encaixar, mil cores, mil cheiros a tinta e diluente, madeira antiga, espetadelas nos dedos - malditas agulhas!, livros espalhados pelo chão, mil canções e peças de teatro cheias de um nonsense tão grande, que é pena que metade se tenha perdido com o tempo.
Tantas coisas que nos ajudaram a explorar a nossa criatividade, a desenvolver os nossos gostos e o nosso espírito crítico, a saber soltar a nossa imaginação e, principalmente, a reconhecermos, mais tarde, o privilégio de sermos crianças e de conhecermos ainda tão poucos limites à nossa criatividade.
Lembro-me especialmente de a Ana um dia nos dizer para desenharmos o nosso pai. Sim, acho que me recordo de tentar desenhar os losangos da camisola do meu pai - que ele ainda a deve ter e usar. (Pai, desculpa lá, mas sabes que é verdade!)
Só houve uma regra que ela nos impôs: "Não podem usar a borracha e só têm essa folha, não podem começar de novo noutra".
Todos encolhemos os ombros, não importava: queríamos desenhar! De lápis em riste, de olhos semicerrados e alguns de nós a trincar a língua de fora ao canto da boca com o empenho.
Até que, um a um, nos apercebermos de que queríamos alterar alguma coisa, de que tínhamos feito "asneira" e que precisávamos da borracha.
"Oh Ana!! Vá lá!!", diziam uns quantos pares de olhos embeiçados. "Não, não podem usar a borracha. Continuem a desenhar!".
E, foi aí que percebemos que tínhamos de improvisar, de dar a volta à coisa, de continuar o que tínhamos começado, mesmo sem borracha.
(Escusado dizer que, no final, achei que o meu desenho não ficou nada como eu queria, especialmente pelo borrão de grafite na zona do nariz que tracei demasiadas vezes - o meu problema com narizes já remonta desde aí, veem? Não deve ter sido uma prenda muito bonita para o meu pai, mas ele de certeza que a guardou na mesma).
É curioso. Lembro-me disto como se fosse hoje. E sorrio, ao pensar que foram precisos mais uns quantos anos para compreender a metáfora ali tão bem criada, de que, por tantas vezes, não poderemos usar uma borracha para apagar algo; e que, mesmo assim, devemos continuar a criar, com imaginação, propósito e foco, o que queremos transmitir à nossa maneira... só assim será fiel e nosso.
Este é um pequeno exemplo do que a minha memória guardou da Ana, e que reencontrei no seu sorriso novamente. Espantada, por eu me lembrar do "desenhar sem borracha" mas creio que, à medida que fomos falando, se foi apercebendo que eu continuo "a desenhar sem borracha" quando é preciso.
/ Muitos foram os que durante a minha vida ignoraram, acharam desinteressante, criticaram ou desdenharam de várias coisas que eu fiz: quer na escrita, quer na minha queda para as artes, desenho, ilustração e por aí fora. (Como sempre faço, vou salientar que: não sou artista, nem tenho formação para isso, não sou designer... mas eu crio, desenvolvo e desenho quando sei do que sou capaz).
Muitos dos que encolheram os ombros ao que fui criando ao longo da minha vida, fizeram-no porque, no seu conceito de professores-educadores-conhecedores, um sol nunca poderá ser pintado de roxo, uma árvore nunca poderá estar pendurada do céu, tal como as frases não podem ser tão longas, ou as metáforas serem usadas sem dó nem piedade.
Outros, leram ou viram ali qualquer coisa, que nem eu mesma me conseguia aperceber e incentivaram-me com conselhos, elogios, ou até, "sorrateiramente", com um trabalho de casa mais peculiar, ou com um olhar mais demorado, daqueles que sabemos traduzir como "conseguiste surpreender-me outra vez, fá-lo novamente".
Senti e ainda sinto de alguma forma, que o nosso sistema educativo e de muitas mentes educadoras mais regradas, não permitem soltar a criatividade tal como seria suposto que ela fosse, livre... como quando éramos crianças e podíamos fazê-lo sem uma censura tão óbvia, sob um olhar tão crítico (e não construtivo), que espezinha e nos sussurra "estavas melhor quieta".
Questionei-me muitas vezes sobre o que criava e sobre a qualidade do meu trabalho. E, perdoem-me a franqueza: ainda o faço.
Talvez por isso me seja tão difícil terminar algo e dizer: "está perfeito", em vez de simplesmente assumir que: "está como deveria estar e, orgulhosamente, fui eu que fiz". Ponto!
Por isso agradeço à "minha Ana" especialmente, a todas "as Anas", que existem por aí fora, e que alimentam a criatividade em crianças e adultos... e agradeço também, humildemente, à criança que continuo a ser, por me permitir continuar a expressar-me à minha maneira e, às vezes, mesmo sem borracha.


Comentários