Porque uma flor não passa de uma flor...
- Ana NM
- 5 de abr. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 26 de jul. de 2021

Uma ingénua tulipa branca acena-me ao longe, misturada entre flores de todas as cores em vasos na berma da estrada junto à florista. E é assim que me sinto.
Uma simples tulipa branca mergulhada numa imensidão de cores vivas e alegres que chamam a atenção de quem passa, enquanto eu fico com o caule mergulhado na água a olhar o mundo que rodopia à minha volta com um olhar esperançoso para que alguém pegue em mim e me leve a ver coisas novas...
Não que a minha imaginação não flua pela minha seiva e que as sensações que apreendo por ver o meu próprio mundo ser parte de outros mundos não sejam suficientes, mas quero mais, muito mais... Mas porquê, se uma flor não passa de uma flor? Cada pétala tem um sentido distinto, cada grão de pólen é um novo sentido que abraça o conhecimento. Nós flores somos assim. E ouço o vento todos os dias a murmurar-me coisas banais e a chuva miudinha que cai ao nascer do sol e que poucos sentem... Assisto ao sol a abrir as portadas das janelas e sinto o cheiro do pão quente e esqueço-me que sou uma simples flor, como tantas outras...Não sei de onde apareceste de repente, mas conheço-te desde sempre assim que te ajoelhas e te debruças sobre mim. Contemplo em êxtase os teus olhos curiosos que me sorriem e as minhas pétalas brancas agitam-se e em silêncio te peço para me escolheres de entre tantas outras tulipas brancas que aqui estão comigo mergulhadas neste vaso feio. Fecho as pétalas com força e sinto umas mãos grandes abraçarem-me e tirarem-me deste vaso; saio da florista junto a ti... Neste quarto branco vejo-te sentado nessa cama com a cara entre as mãos e só eu sei que choras. Só eu, do cimo deste vaso translúcido em que me puseste, sei o quanto te dói essa tristeza. Sonho em proteger-te com as minhas longas pétalas brancas e ver-te melhor. Conhecer quem me contempla com tanta ternura, quem passeia os dedos por mim com tanta volúpia...Mas é em vão. Continuas aí sentado nessa cama e não sabes sequer em tudo isto que penso.
Pela janela vejo as grandes árvores desta avenida sem nome, deste sítio que não tem tempo para existir. E a noite vai caindo lentamente... E tu, sentado no parapeito da janela, encantas a escuridão com as palavras que vais rasgando e que se soltam no vento. E eu, mergulhada neste vaso translúcido, espreito-te, sem dares conta, ao som dos batimentos do relógio da entrada.
Pesam-te os olhos cansados de tanto sonhar pela noite fora, pousas o caderno, o lápis e sentas-te ao meu lado olhando-me outra e outra vez... - se as flores pudessem corar na sua timidez, decerto este seria um momento assim...- e a tua voz fica presa neste silêncio lindo que se tomou conta de ti. Mas eu sei ouvir o teu coração e saber porque estás tão triste e porque choras por dentro ao olhar-me assim. É este amor imenso que guardas dentro de ti, que tentas metamorfosear em versos soltos pela noite que te fala perto do teu ser e justifica toda essa loucura avassaladora que te perpassa numa aparente calma de quem saboreia a vida com um gosto especial.
Adormeces abraçado a mim nesta cama de lençóis de linho branco e eu vou abrindo as minhas pétalas para me despedir do mundo que vou deixar. Aos primeiros raios de sol a entrarem deleitosamente pela janela aberta de par em par guardo a tua figura adormecida de lágrimas presa a mim. Despertas para um novo dia, despertas para um novo amor...
E eu adormeço para sempre pousada na cama, até pegares em mim com a mesma delicadeza da primeira vez que me viste.
E tudo acaba. A minha vida acabou aqui.
Porque uma flor não passa de uma flor.


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