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Senhor do café

  • Ana NM
  • 5 de abr. de 2020
  • 2 min de leitura

Atualizado: 26 de jul. de 2021


O senhor do café olha para a televisão com um sorriso nos lábios e solta uma gargalhada no momento em que olho também e vejo que está a dar um programa de "apanhados". É um senhor de camisa branca, calças pretas, barriga proeminente, cabelo grisalho, óculos e ar de avozinho bem-disposto.


É completamente despistado e quando lhe peço um café e o copo de água, ele não tira os olhos ta televisão, dá uma gargalhada e faz-me sentir invisível. Lá fora um calor insuportável torna o ar irrespirável. O pacote de açúcar na mesa diz-me que "namorar é a melhor coisa do mundo". O meu bloco de notas, a minha caneta e um livro de Isabel Allende que ando para ler desde o natal, fazem-me companhia. Mas ainda não vai ser desta que o vou ler... As barricas de ovos-moles empoleiradas em fila indiana nas prateleiras de vidro e espelhos sussurram-me "não nos queres contar?".

Há sumo de laranja natural a um euro e cinquenta cêntimos e há bombons num frasco de vidro ao lado da caixa registadora. O senhor do café engana-se quando dá o troco a uma cliente mas continua a rir-se a olhar para a televisão. Nem repara que a senhora saiu do café a resmungar baixinho e a revirar os olhos...

Os clientes vão chegando e olham intrigados para ele...seguem a direção do seu olhar e sorriem, alguns chegam mesmo a ajeitar as cadeiras para o verem melhor.

De repente entra um casal. E um homem pergunta: - Olhe, não tem aí nada que diga "Aveiro"?

- Temos ovos-moles, se quer uma coisa típica... - responde o senhor do café.

- Não quero ovos-moles nenhuns. Quero barcos, barquinhos...'tá a ver? Aqueles estranhos...mas aqui não deve ter, só lá mais abaixo na avenida...

- As barricas dos ovos-moles têm "barquinhos de Aveiro" pintados, os moliceiros... - explica o senhor do café, meio contrariado por ter de tirar os olhos da televisão.

- Ah, então dê-me disso... Quanto é? É caro?

- Não, são só quatro euros e qualquer coisa... Olhe, poupa no tabaco, é o que é!

- Eu não fumo... - diz o "turista" com ar entediado com a graçola.

- Pouparia se fumasse! Aqui tem. - remata de imediato o senhor do café.


Soube mesmo agora por um amigo, que o senhor do café se chama Mário e que foi o pasteleiro oficial do presidente da câmara de Caracas na Venezuela. Por isso, senhor Mário, só quero que saiba: eu gosto de si.



 
 
 

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